Texto publicado na Revue Spirite, dezembro de 1868, pp. 353-62. Sua tradução por I. G. Braga apareceu em Reformador, outubro 1949, pp. 217-20 (de onde esta versão eletrônica foi extraída); foi repetida no número de março de 1976, pp. 78-82. A figura de Kardec aparecia na p. 219 da primeira publicação. No final dessa publicação havia a seguinte nota: “Nota de "Reformador": Este trabalho foi escrito e publicado alguns meses antes do decesso do Autor. Tradução de Ismael Gomes Braga.”

 



É o Espiritismo uma religião? 

Allan Kardec

Tradução de Ismael Gomes Braga

Discurso de abertura da sessão anual comemorativa dos mortos, da Sociedade Parisiense, em 1o de Novembro de 1868, pelo Sr. Allan Kardec [1]

“Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou eu entre eles.” (S. Mateus, Cap. XVIII, 20).


Caros irmãos e irmãs espíritas: 

Estamos reunidos neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para darmos, àqueles dos nossos irmãos que já deixaram a Terra, um testemunho especial de simpatia; para continuar as relações de afeição e fraternidade que existiam entre eles e nós quando eles eram vivos, e para implorarmos para eles a bondade do Todo-Poderoso. Mas por que nos reunirmos? Não podemos fazer, cada um em particular, o que nos propomos fazer em comum? Que utilidade pode haver em nos reunirmos assim em um dia determinado? 

Jesus nos indica, pelas palavras que citamos acima, essa utilidade. Ela está no resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre as pessoas que se acham reunidas para um mesmo fim. 

Mas compreende-se bem todo o alcance destas palavras: Comunhão de pensamentos? Seguramente até hoje poucas pessoas têm disso uma idéia completa. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas pelas leis que ele nos revela, vem'ainda nos explicar as causas, os efeitos e o poder dessa situação espiritual . 

Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força; mas é ele uma força puramente moral e abstraía? Não; de outro modo não se explicariam certos efeitos do pensamento e ainda menos a comunicação do pensamento. Para compreendê-lo, é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elementos que constituem nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-lo ensina. 

O pensamento é atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o Espírito da matéria: sem o pensamento, o Espírito não seria Espírito. A vontade não é um atributo especial do Espírito, é o pensamento chegado a certo grau de energia; é o pensamento tomado força motriz. E' pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimento em determinado sentido. Mas se tem o poder de agir sobre os órgãos materiais, quão maior não há-de ser esse poder sobre os elementos fluídicos que nos cercam! O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; estes fluidos nos trazem o pensamento, assim como o ar nos traz o som. Pode dizer-se, pois, com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e ralos sonoros. 

Uma assembléia é um foco de onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos em que cada um produz sua nota. Disso resulta uma multidão de correntes e de eflúvios, dos quais cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro de música cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição. 

Mas, do mesmo modo que há raios sonoros harmônicos ou discordantes, há também pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão será agradável; se for discordante, a impressão será penosa. Ora, para isso, não é necessário que o pensamento seja formulado em palavras; a radiação fluídica não existe menos por não ser expressa; se todos os pensamentos forem benevolentes, todos os assistentes sentirão verdadeiro bem-estar, sentir-se-ão alegres; mas se se misturarem pensamentos maus, produzirão o feito de uma corrente de ar gelado, num ambiente tépido. 

Essa é a causa, do sentimento de satisfação que se experimenta em uma reunião simpática; reina nela como que uma atmosfera moral salubre, onde a gente respira à vontade; de tal reunião sai-se reconfortado, porque nela se fica impregnado de eflúvios salutares. Assim se explica também a ansiedade, o mal estar indefinível que se sente em um meio antipático, no qual os pensamentos malevolentes provocam, por assim dizer, correntes fluídicas doentias. 

Portanto, a comunhão de pensamentos, produz uma espécie de efeito físico que reage sobre o moral; só o Espiritismo poderia fazer compreender isso. O homem o sente instintivamente, porque procura as reuniões onde sabe que encontrará essa comunhão; nessas reuniões homogêneas e simpáticas ele adquire novas forças morais; dir-se-ia que nelas ele recupera as perdas fluídicas que ele sofre diaria-{218}mente pela radiação do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material. 

A esses efeitos da comunhão de pensamentos, junta-se outra que lhes é consequência natural e que importa não perder de vista: é o poder que adquire o pensamento ou a vontade, pelo conjunto de pensamentos ou vontades reunidos. Sendo a vontade uma força ativa, esta força se multiplica pelo número de vontades idênticas, como a torça muscular pelo número de braços. 

Estabelecido este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos, há, numa reunião em que reine perfeita comunhão de pensamentos, um poder atrativo ou repulsivo que nunca é possuído por um indivíduo isolado. Se até agora as reuniões demasiado numerosas são menos favoráveis, é pela dificuldade de obter-se uma homogeneidade perfeita de pensamentos, o que é próprio da imperfeição humana sobre a Terra. Quanto mais numerosas são as reuniões, tanto mais se misturam nelas elementos heterogêneos que paralisam a ação dos bons elementos, e que são como grãos de areia em uma engrenagem. Não é assim nos mundos mais adiantados, e este estado de coisas mudará na Terra, à proporção que os homens se tomem melhores. 

Para os espíritas, a comunhão de pensamentos tem um resultado ainda mais especial. Vimos o efeito dessa comunhão de homem a homem; o Espiritismo nos prova que ela não é menor entre os homens e os Espíritos e reciprocamente. Com efeito, se o pensamento coletivo adquire força pelo número, um conjunto de pensamentos idênticos, tendo por finalidade o bem, terá mais poder para neutralizar a ação dos maus Espíritos; por isto vemos que a tática destes últimos é promover a desunião e o insulamento. Um homem, só, pode sucumbir, enquanto que, se a sua vontade for auxiliada por outras vontades, ele poderá resistir, de acordo com o axioma: A união faz a força, axioma verdadeiro tanto no moral quanto no físico. 

Por outro lado, se a ação dos Espíritos malevolentes pode ser paralisada por um pensamento comum, é evidente que a dos bons Espíritos será secundada; sua influência salutar não encontrará obstáculos; seus eflúvios, não sendo detidos por correntes contrárias, se difundirá por todos os assistentes, precisamente porque todos a terão atraído pelo pensamento, não cada um para seu proveito pessoal, mas em beneficio de todos, conforme à lei de caridade. Descerão sobre eles em línguas de fogo, para nos servirmos de admirável imagem do Evangelho . 

Assim, pela comunhão de pensamentos, os homens assistem-se mutuamente, e ao mesmo tempo auxiliam os Espíritos e são ajudados por eles. Assim, as relações do mundo visível com o mundo invisível já não são individuais, são coletivas, e por isso mesmo mais poderosas em proveito das massas bem como para o dos indivíduos; em uma palavra, ela estabelece a solidariedade que é a base da fraternidade . Cada um não trabalha somente para si, mas para todos, e, trabalhando para todos, cada um recebe seu quinhão; é isso que o egoísta não compreende . 

Graças ao Espiritismo, compreendemos, pois, o poder e os efeitos do pensamento coletivo; explicamo-nos melhor o sentimento de bem-estar que se sente num meio homogêneo e simpático; e sabemos igualmente que o mesmo se dá com os Espíritos, porque também eles recebem os eflúvios de todos os pensamentos benevolentes que se elevam para eles como emanações de perfume. Os que são felizes sentem uma alegria maior por esse concerto harmonioso; os que sofrem sentem um grande alívio. 

Todas as reuniões religiosas, a qualquer culto que pertençam, são fundadas sobre a comunhão de pensamentos; e com efeito é nas reuniões religiosas que ela deve e pode exercer todo o seu poder, porque o alvo tem que ser o desprendimento do pensamento das estreitezas da matéria. Infelizmente a maior parte delas se têm desviado desse princípio, à medida que fazem da religião uma questão de forma. Disso resulta que cada um, fazendo consistir seu dever no cumprir as formas, crê-se quite com Deus e com os homens, quando haja praticado a fórmula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, de seu próprio interesse e o mais frequentemente sem sentimento algum de fraternidade para com os outros assistentes; fica isolado no meio da multidão, e não pensa no céu senão para si mesmo.

Certamente não é assim que o entendia Jesus quando disse: "Quando estiverdes diversos reunidos em meu nome, eu estarei no melo de vós". Reunidos em meu nome, isto é, com um pensamento comum; mas não podem estar reunidos em nome de Jesus sem lhe assimilarem os princípios, sua doutrina; ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e atos. Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus os recusa para seus discípulos. 

Escandalizadas por esses abusos e por esses desvios, há pessoas que negam utilidade às assembleias religiosas e por conseguinte aos edifícios consagrados a essas assembleias. Em seu radicalismo, elas pensam que seria melhor construir asilos do que templos, visto que o templo de Deus está em toda parte, que Ele pode ser adorado em todos os lugares, que cada um pode orar em sua própria casa e a toda hora, enquanto que os pobres, os doentes e inválidos têm necessidade de lugares de refúgio. 

Mas pelo fato de se cometerem abusos, de se desviarem do caminho direito, segue-se que o caminho direito não exista e que tudo de que se abusa seja mau? Assim falar é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos que deve ser a essência das assembleias religiosas; é ignorar as causas que a provocam. Que materialistas professem semelhantes ideias, concebe-se; porque eles em todas as coisas fazem abstração da vida espiritual; mas da parte de espiritualistas, e mais ainda de espíritas, isso seria uma insensatez. insulamento religioso, como o insulamento social, conduz ao egoísmo. Que alguns homens sejam bastante fortes por si mesmos, amplamente dotados pelo coração, para que sua fé e sua caridade não tenham necessidade de ser retemperadas num lar comum, é possível; mas não se dá o mesmo com as massas, às quais é necessário um estimulante, sem o qual poderiam deixar-se dominar pela indiferença. Além disso, qual é o homem que se possa julgar bastante esclarecido para nada ter 'que, aprender com respeito aos seus interesses futuros? bastante perfeito para dispensar conselhos na vida presente? E' ele sempre capaz de instruir a si mesmo? Não; a maioria necessita de ensinos diretos em matéria de religião e de moral, como em matéria de ciência. E' fora de dúvida que esse ensino pode ser dado em toda a parte, sob a abóbada celeste como sob a de um templo; mas porque os homens não teriam lugares especiais para os assuntos do céu, como têm para os negócios da Terra? Porque não teriam assembleias religiosas como têm assembleias políticas, cientificas e industriais ? Esse lugar é uma bolsa na qual se ganha sempre sem fazer que ninguém perca coisa alguma. Isso não impede as fundações em proveito dos infelizes; mas acrescentamos que quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu, haverá menos gente para os asilos.

Se as assembleias religiosas — falamos em geral, sem fazer alusão a culto algum — muitas vezes se têm desviado do alvo primitivo principal, que é a comunhão fraterna do pensamento; se o ensino que nelas é dado não tem seguido sempre o movimento progressivo da Humanidade, é porque os homens não realizam todos os progressos a um tempo; {219}o que eles não fazem em um período, fazem em outro; à medida que se esclarecem, eles vêem as lacunas que existem em suas instituições e as preenchem; compreendem que p que era bom em uma época, de acordo com o grau de civilização, se torna insuficiente em um estado mais adiantado, e restabelecem o nível. O Espiritismo, nós o sabemos, é a grande alavanca do progresso em todas as coisas; ele marca uma era de renovação. Saibamos, pois, aguardar o porvir, e não peçamos a uma época mais do que ela pode dar. Como as plantas, as ideias precisam de amadurecer para que se lhes possam colher os frutos. Saibamos, além disso, fazer as necessárias concessões às épocas de transição, porque nada em a Natureza se opera de maneira brusca e instantânea. 

Dissemos que a verdadeira finalidade das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que de fato a palavra religião quer dizer elo; uma religião, em sua acepção ampla e verdadeira, é um elo que religa os homens em uma comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças; consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É neste sentido que se diz: a religião política; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra religião não é sinônima de opinião; implica uma ideia particular: a de fé conscienciosa; é por isso que se diz também: a fé política. Pois bem, certos homens podem alistar-se por interesse em um partido, sem dele terem a fé, e a prova disso é que eles o deixam, sem escrúpulo algum, quando acham que seu interesse está em outro lugar, enquanto que aquele que o abraça por convicção é inabalável; este persiste à custa de todos os sacrifícios e é a abnegação dos interesses pessoais que é a verdadeira pedra de toque da fé sincera. Todavia, se a renúncia a u m a opinião, motivada pelo interesse, é um ato de desprezível covardia, é ato respeitável, ao contrário, quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é, então, um ato de abnegação e de raciocínio. Há mais coragem e grandeza em reconhecer abertamente que se havia enganado, do que em persistir, por amor-próprio, no que se sabe ser falso, só para não se dar um desmentido a si mesmo, o que demonstra mais teimosice do que firmeza, mais orgulho do que critério e mais fraqueza do que força. Mais ainda: é hipocrisia, porque se quer parecer o que não se é; além disso é má ação, porque é fortalecer o erro pelo seu próprio exemplo. 

O laço estabelecido por uma religião, seja qual for seu objetivo, é, portanto, um elo essencialmente moral que religa os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não é somente o fato de compromissos materiais que se rompem à vontade, ou do cumprimento de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse elo moral é estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunidade de opiniões e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. E' nesse sentido que se diz também: a religião da amizade, a religião da família. 

Se assim é, dirão, o Espiritismo então é uma religião ? 

— Perfeitamente! sem dúvida; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso, porque ele é a doutrina que funda os laços de fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as leis da própria Natureza. 

Porque então declarámos que o Espiritismo não é uma religião? Por isso que só temos uma palavra para exprimir duas ideias diferentes e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto: revela exclusivamente uma ideia de forma, e o Espiritismo não é isso. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público só veria nele uma nova edição, uma variante, se assim nos quisermos expressar, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; o público não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos, contra os quais sua opinião tem-se elevado tantas vezes. 

Não possuindo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria omar-se com um título sobre o valor do qual inevitavelmente se estabeleceria a incompreensão; eis porque ele se diz simplesmente: doutrina filosófica e moral. 

As reuniões espíritas podem, pois, realizar-se religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza austera dos assuntos de que nelas se tratam; podem mesmo fazer-se, em ocasião oportuna, orações que, em vez de serem ditas em particular, são feitas em comum, sem serem por isso o que se entende por assembleias religiosas. Não se julgue que isto seja simples jogo de palavras; o matiz é perfeitamente claro, e a aparente confusão vem da falta de uma palavra para cada ideia. 

Qual é então o elo que deve existir entre os espíritas? Eles não são unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória; qual é o sentimento em que se devem confundir todos os pensamentos? E' um sentimento todo moral, totalmente espiritual, inteiramente humanitário: o da caridade para com todos, em outras palavras: o amor ao próximo que compreende os vivos e os mortos, porque sabemos que os mortos continuam fazendo sempre parte da Humanidade. 

A caridade é a alma do Espiritismo: ela resu-{220}me todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com seus semelhantes; é por isso que se pode dizer que não há verdadeiro espírita sem caridade. 

Mas caridade é ainda uma dessas palavras de sentidos múltiplos, da qual é necessário compreender bem todo o alcance; e se os Espíritos não cessam de pregá-la e de a definir, é porque provavelmente eles reconhecem que isso ainda é necessário. 

O campo da caridade é muito vasto; compreende duas grandes divisões que, por falta de termos especiais, pedem designar-se pelas palavras: Caridade benfeitora e caridade benevolente. Compreende-se facilmente a primeira, que é naturalmente proporcionada aos recursos materiais de que se dispõe; mas a segunda está ao alcance de todos, do mais pobre como do mais rico. Se a beneficência é forçadamente limitada, só a vontade poderia opor limites à benevolência. 

Que é necessário, então, para praticar a caridade benevolente? Amar o próximo como a si mesmo; pois que, se se amar o próximo como a si mesmo, amar-se-á muito o próximo; proceder-se-á para com outrem como se quereria que ele procedesse para conosco; não se desejará nem se fará mal a pessoa alguma, porque não quereríamos que outros no-lo fizessem. 

Amar o próximo é abjurar todo sentimento de ódio, de animosidade, de rancor, de inveja, de ciúme, de vingança, em uma palavra, todo desejo e todo pensamento de prejudicar; é perdoar aos seus inimigos e fazer o bem em paga do mal que se receba; é ser indulgente para com as imperfeições de seus .semelhantes e não procurar a palha no olho do vizinho, quando não se vê a trave em seu próprio; é velar ou excusar as faltas de outrem, em lugar de comprazer-se em pô-las em relevo pelo desejo de denegrir; é ainda não se pôr em evidência à custa dos outros; não tentar esmagar ninguém sob o peso de sua superioridade; não desprezar por orgulho a ninguém. Eis a verdadeira caridade benevolente, a caridade prática, sem a qual caridade é palavra vã; é a caridade do verdadeiro espírita como do verdadeiro cristão; aquela sem a qual quem diz: Fora da caridade não ha, salvação, pronuncia sua própria condenação neste mundo como no outro. 

Quanta coisa haveria a dizer-se sobre esse assunto! Que belas instruções nos dão incessantemente os Espíritos! Sem o receio de ser demasiado longo e abusar da vossa paciência, Senhores, seria fácil demonstrar que em se colocando do ponto de vista do interesse pessoal, egoísta, se assim quiserem, porque todos os homens não estão ainda maduros para uma abnegação completa, para fazerem o bem unicamente por amor ao bem, seria, digo, fácil demonstrar que eles têm tudo a ganhar por proceder desse modo e tudo a perder por agirem de modo contrário, mesmo em suas relações sociais; pois que o bem atrai o bem e a proteção dos bons Espíritos; o mal atrai o mal e abre a porta à malevolência dos maus. Cedo ou tarde o orgulhoso é castigado pela humilhação, o ambicioso pelas decepções, o egoísta pela ruína de suas esperanças, o hipócrita pela vergonha de ser desmascarado; quem abandona os bons Espíritos é abandonado por eles, e, de queda em queda, vê-se enfim no fundo do abismo, enquanto que os bons Espíritos elevam e sustentam aquele que, em suas grandes provas, não deixa de confiar na Providência e nunca se desvia do caminho direito; aquele, enfim, cujos pensamentos secretos não dissimulam nenhum pensamento oculto de vaidade ou de interesse pessoal. Portanto, de um lado, ganho seguro; do outro, perda certa; cada um, em virtude de seu livre arbítrio, pode escolher o destino que quer correr, mas não poderá queixar-se senão de si mesmo pelas consequências de sua escolha. 

Crer em um Deus todo poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e na sua imortalidade; na preexistência da alma como justificativa da presente existência; na pluralidade das existências como meio de expiação, reparação e adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na remuneração equitativa do bem e do mal, segundo o principio: a cada um segundo suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para criatura alguma; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no livre arbítrio do homem, deixando-lhe a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na solidariedade que liga todos os entes passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito,que é eterna; aceitar corajosamente as provas, visto ser o futuro mais desejável que o presente; praticar a caridade por pensamentos, palavras e obras, na mais ampla acepção do vocábulo; esforçar-se cada dia por ser melhor do que na véspera, extirpando da alma alguma imperfeição; submeter todas as suas crenças ao controle do livre exame e da razão, e nada aceitar por uma fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da Ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. Esse é o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, enquanto se espera que ele ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal. 

Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz e se pouparão aos males incalculáveis que nascem da discórdia, filha por seu turno do orgulho, do egoísmo, da ambição, do ciúme e de todas as imperfeições da Humanidade. 

O Espiritismo dá aos homens tudo de que eles necessitam para sua felicidade aqui na Terra, porque lhes ensina a se contentarem com o que tenham; sejam os espíritas os primeiros a se aproveitarem dos benefícios que ele traz e inaugurem entre si o reino da harmonia que resplandecerá nas gerações futuras. 

Os Espíritos que aqui nos cercam são incalculáveis, atraídos pela finalidade a que nos propomos ao nos reunirmos, a fim de darmos aos nossos pensamentos a força que nasce da união. Demos aos que nos são caros uma boa recordação e o penhor de nossa afeição, ânimo e consolo aos que disto necessitam. Procedamos de maneira que cada um colha sua .parte dos sentimentos de caridade benevolente, da qual seremos animados, e que esta reunião produza os frutos que todos têm direito de esperar dela. 

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[1] A primeira parte deste discurso é tomada de uma publicação anterior sobre a Comunhão de pensamentos, mas que era necessário recordar por causa da ligação com a ideia principal. – Nota de Allan Kardec.

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